sexta-feira, 17 de julho de 2009

Professores merecem aumento de salário?

Hora do intervalo, sala dos professores, sempre aquele mesmo assunto: "não ganho pra isso". Fico na minha, só ouvindo um bando de professores despreparados, que faltam, enrolam o aluno na sala de aula e depois dão uma provinha, de preferência igualzinha à lista de exercícios corrigida em sala, pros alunos passarem logo. E dizem que não podem fazer nada melhor porque "não ganham pra isso". E eu com meus botões: "eu não pagaria nem um centavo a mais por esse trabalho medíocre que você está fazendo". Infelizmente, esses professores não podem ganhar mais. O trabalho deles é ruim demais, deficiente demais para que mereçam ganhar mais. E atrapalham o meu trabalho, o que me faz pensar que deveriam ganhar ainda menos. Acostumam mal os alunos; fazem-nos achar normal não aprender nada e "passar de ano". Trabalhinhos que nem serão lidos valem pontinhos. Nem o aluno lê, nem o professor. As provas são "de marcar"; o professor pede pro filho ir ajudando a corrigir porque, afinal, é só certo ou errado dependendo da letrinha marcada ali. Em uma hora já corrigiu as provas de todas as turmas. A aula, que deveria começar 7h, começa 7:30, porque o professor enrola pra entrar na sala, depois enrola dentro da sala, leva um tempão pra estacionar a bolsa/pasta na mesa e sentar. Depois saca vagarosamente o diário e vai fazendo a chamada bem devagar, com aquele ar de preguiça bem visível. Faz várias pausas e conversa um pouquinho com algum aluno que esteja perto. Depois de meia hora ou mais, manda os alunos abrirem o livro, ou começa a escrever algo no quadro. E os alunos conversam, e assim vai essa brincadeira de mal gosto, com o "eu finjo que ensino e você finge que aprende". Acho que por esse trabalho, o professor anda ganhando até bem.

Sim, estou andando na contramão de toda uma multidão de professores. Mas perdoem-me; não consigo engolir esse discurso pronto de aumento salarial. Sim, eu sou professora e gostaria que meu trabalho fosse mais valorizado. Gostaria de ganhar mais. É claro. Mas minha própria classe desvaloriza o trabalho. E quer receber mais pela mediocridade que faz. Aí não dá.

Todo professor, antes de se tornar professor, sabe que vai ganhar mal. Se entra na dança, é porque aceitou o salário e as condições. Se não estava satisfeito com as condições, procurasse outra coisa pra fazer. Quando meus colegas fizeram o concurso para professor do Estado do RJ, já sabiam que ganhariam 500 reais para trabalhar 12h em sala de aula. Aceitaram as condições, "assinaram" o contrato. Então devem fazer o trabalho CORRETO de um professor pelo salário que ganha. Chegar depois com o papinho de que "não ganho pra isso" não rola. Eu não engulo.

Lutar por aumento salarial é totalmente válido. Nosso salário está defasado em mais de 5 vezes; na década de 80, um professor ganhava cinco salários mínimos para a mesma carga horária de um professor que hoje ganha apenas um salário mínimo. Tudo foi aumentando, mas o salário do professor não sofreu reajuste. Engraçado, né? Sim, o Estado nos deve. Mas não deve aos professores que não fazem o seu trabalho devidamente. Por isso o salário não pode aumentar. Não para esses professores.

Então qual é a solução?

Novamente na contramão dos outros professores, acho que deveriam ser abertos concursos com cargos em um nível diferente, com alguma outra denominação para justificar um maior salário para uma nova classe de professores. E os professores ativos poderiam fazer o concurso e competir com novos professores. Caso passassem, poderiam contar o tempo de serviço antigo e receber o novo salário. E aos poucos, conforme os professores despreparados e que não passassem no concurso fossem se aposentando (com o salário antigo, é claro), o quadro de professores seria substituído por outros mais qualificados e motivados com um bom salário.

A prova desse concurso seria mais bem elaborada que essas ridículas provas que ocorrem por aí. E teria obrigatoriamente que ter questões discursivas e redação com mínimo de pontos bastante alto, para evitar professores que não sabem escrever direito. Questões discursivas sobre Educação são importantes (principalmente discussões sobre avaliação e o papel do professor) e deveriam fazer parte do programa.

Você acha meu discurso elitista, neoliberal ou sei lá o quê? Eu não acho nem um pouco. E cada vez que vou para a sala dos professores na hora do intervalo, meu asco diante dos diálogos só reforça tudo o que expus aqui.

É uma pena.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Nem tão ao norte nem ao sul

Ontem foi conselho de classe na escola estadual onde leciono e várias coisas despertaram minha atenção. A primeira delas, e a mais chocante para mim, foi observar como os professores aprovavam um número tão grande alunos com notas tão altas. Você, leitor, pode estar pensando que eu sou uma bruxa conservadora, dessas que amam reprovar. Mas não sou. Aliás, longe disso. Eu gostaria de aprovar a todos os alunos e ficar feliz no fim do ano, sabendo que todos aprenderam Física. Mas isso não ocorre. Meus diários de classe parecem uma chacina, tal a quantidade de notas vermelhas. Durante o conselho, os professores "bonzinhos" me olhavam assustados; um ou outro professor desses mais velhos, conservadores, sorriam para mim, como se eu fosse "corretamente maléfica", como eles acreditam que um professor deve ser.

A professora de matemática aprovou alunos que foram incrivelmente mal em Física com ótimos conceitos. Dois deles me chamaram a atenção, pois eles não sabiam SOMAR. Eu havia constatado isso durante as aulas, nas tentativas de explicação (individual, na carteira!) de conceitos básicos de quantidade de movimento. "-300+200, quanto dá?", perguntei a um deles. "Ahn... 500?". "Não, vamos lá. Olhe só, é MENOS 300 MAIS 200". "Ihh, professora... esse negócio de menos e mais eu nunca soube direito." Pois é. Esse aluno passou em matemática com uma boa nota. Eu, num impulso, exclamei durante o conselho: "Mas esse aluno não sabe somar!!" E a professora de matemática se ofendeu e disse: "Sabe sim..."

Também houve o caso de um aluno ANALFABETO que está no primeiro ano do segundo grau. Ele não sabe ler. Escreve o próprio nome com letras de uma criança que está se alfabetizando. Deixa a prova em branco porque não consegue ler o enunciado...ou quando escreve, coloca coisas ilegíveis ou completamente erradas, sem relação alguma com o conteúdo da prova. Mas esse aluno foi aprovado em geografia, história e até em português. Se ele não sabe ler, como conseguiu essa proeza? Será que realmente eu era tão incompetente como professora que tinha até um poder mágico de fazer o aluno não saber ler qualquer coisa que estivesse na frente dele?

Perguntei à professora de geografia ao meu lado como pode ele ter sido aprovado na matéria dela. E ela me respondeu com a grande explicação para o que eu via no conselho: "Ahh, eu estava com tantas turmas que todas as minhas questões eram de múltipla escolha, para facilitar a correção...."

JAMAIS coloquei um questão sequer de "marcar" em minhas avaliações. Não faço isso porque a avaliação serve para me dizer se o aluno aprendeu ou não o conteúdo. Se eu coloco uma questão demúltipla escolha, como vou saber se ele aprendeu ou se chutou? Jogo o objetivo da avaliação no lixo! Não vou poder determinar se ele aprendeu aquilo ou não.


Faço de tudo para que os alunos aprendam. Amo o que faço e realmente me dedico e realizo com prazer. Talvez tenha vários defeitos e muitos aspectos a amadurecer em minha prática, mas tenho bastante consciência do trabalho que desempenho e faço o que julgo correto. Não acho que reprovar é algo bom. Mas também não acho ruim. O aluno fica muito mal acostumado com essa prática desleixada dos professores, e não estudam. Sabem que podem vagabundear o ano inteiro, porque no final irão "passar de ano". E não aprendem nada. E então vem uma professora de física que leva a sério o seu trabalho e não dá pontinhos, não passa trabalhinhos ridículos desses que eles só fazem ctrl+c e ctrl+v, passa tarefas de casa que não valem ponto e é exigente quanto ao silêncio no momento em que explica alguma coisa. Os alunos não compreendem e não fazem as tarefas. Os que fazem vão muito bem nas avaliações. Os que não fazem acabam indo mal. E como eles são acostumados apenas a copiar tarefas e trabalhinhos e ganhar pontinhos, a maior parte não faz minhas tarefas. E acham um absurdo eu passar atividades que não valem "pontos".

Já até testei uma vez fazer estas atividades valerem pontos. O que acontece é que eles copiam, e de nada adianta. Para o ano que vem eu já elaborei um outro tipo de prática, com "mini-testes" de 15 ou 20min no fim da aula, sobre o conteúdo dado no dia. Isso talvez os "force" a prestar atenção e é o momento em que eles farão exercícios. Claro que se eu disser que são apenas exercícios eles não vão fazer. Tenho que usar a palavra "teste".


O conselho de classe foi ontem, e fiquei refletindo muito sobre tudo isso. Então hoje eu folheei uma revista feminina deste mês e havia uma reportagem sobre escola que dizia que "os melhores professores são aqueles que mais aprovam, pois conseguiram motivar a turma e fazê-los aprender". Antigamente as pessoas achavam que professor bom era o que reprovava muito. Agora acham que é o que aprova muito. SERÁ QUE NÃO PERCEBEM QUE PROFESSOR BOM É AQUELE QUE FAZ O ALUNO APRENDER? E que aprovação em massa não garante nem um pouco que eles tenham realmente aprendido?

Na perspectiva da revista, eu sou uma péssima professora. Na minha análise, eu posso até não ser ótima, pois tenho muito o que aprender, mas acredito que meus alunos reprovados tenham aprendido mais de Física do que de Matemática, mesmo tendo sido aprovados nesta. Pelo menos eu lutei o ano inteiro para que aprendessem, e só reprovei porque deveriam aprender muito mais e acredito que eles podem ir muito mais longe.

Além disso, as pessoas olham a reprovação como algo muito ruim. Reprovar é dar uma chance para que o aluno aprenda no ano seguinte. E aí vêm e dizem: "Ahh, mas o que a gente observa é que ele continua sem aprender, não adianta nada." Não adianta porque os professores continuam com a prática desleixada, sem se importar com o aprendizado de fato. Não é por culpa da reprovação.

Tive muitas experiências positivas com o ensino de Física neste meu ano de magistério.
Comecei comentando as negativas porque elas me doem, são marcantes e atravancam meu trabalho. É incrível, mas os que mais atrapalham o meu trabalho são os meus colegas professores.